sexta-feira, 1 de março de 2013

SILVA: QUADROS E LIVROS

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PARA LER OU BAIXAR.
ÓTIMA LEITURA,
ROMILDO


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domingo, 5 de agosto de 2012

O FOCA







Jânio de Freitas e Paulo Francis




A foca é bicho de águas salgadas, faz festa nos aquários e sessões da tarde. Dizem que é inteligente e faceira, mas nunca entendi o porquê daquela carinha de alegria: tem as barbatanas curtas, achatadas, e se locomove em contorções. Semelha a um desses seres em eterna transição anatômica.  Seu nome, usado como substantivo de dois gêneros, designa também o/a jornalista em começo de carreira. Os dois mamíferos não teriam interesse nesta crônica, não fosse “o foca” a redenção viva da imprensa em geral.




Bóris Casoy e Carlos Castelo Branco
  

Simpatizo-me pelo foca. Sempre se incumbe de reportagens chatas. Eu mesmo fui um foca, nos idos da ditadura. O editor do Diário pautou-me matéria em um cárcere, sobre a vida dos detentos. Lá fui, vestido de coroinha, três sábados seguidos, às 4 da tarde, a ajudar a missa que um padre italiano rezava no presídio. Voltava com um balde de cartas que os presos me confiavam, driblando a censura da chefia. Quando não envelopadas, lia-as por curiosidade mórbida. O foca é um eterno curioso, e essa é uma de suas qualidades mais fecundas.



 Élio Gáspari e José Hamilton Ribeiro



Bluff Your Way in Journalism, de Nigel Foster, sobre gritantes equívocos dos jornais, jornalismo e jornalistas (cito o título em inglês pra fingir que li no original; os que já foram foca têm constantes recaídas de foca). 




Clovis Rossi e Glória Maria



Como dizia, em tal livro se afirma que o foca-homem sofre de acne terminal, o que parece verdade e suscita anedotas na redação. Mas, por maldade ou machismo, assevera que a foca-mulher está sempre atenta contra o assédio sexual e, em muitos casos, fica frustrada quando isso não lhe acontece.



 Millôr Fernandes e Alberto Dines




Um dom agregado à condição de foca é a arrogância e presunção, diz o livro. Seja qual for o assunto, dá sinais de entendido. Diante dos acontecimenos que serão notícias, manifesta longos silêncios, como que a dissecar as segundas intenções dos personagens envolvidos.  Nas entrevistas, olha o interlocutor com suspeitas, e, ao redigir o texto, enfatiza entre aspas tropeços do entrevistado. Nesse ponto, há que se lhe acrescentar mais um toque de personalidade: o foca quase sempre é do contra e exerce o autoritarismo dos novatos.




   Reale Júnior e Salete Lemos



O foca, foca mesmo, adora jargões em inglês dos cursos de jornalismo. Esnoba “hard news”, “leads”, “on”, “off”, “press release” e “briefing”. Mas, plantado no instinto, com atributos peculiares do foca, é o que vai tornar-se o jornalista que se preza, de honra. Incorpora a ação altruísta que só germina no fulgor da juventude. E se faz locomotiva a noticiar o tempo que transforma, canal de denúncia à torpeza dos rudes, fermento de coragem, idealismo e civilidade.




Tim Lopes e Zuenir Ventura




Wladimir Herzog



domingo, 1 de julho de 2012

O GRILO














Não há bicho mais estranho neste mundo, o grilo. Sempre à espreita, mas secreto e salteante, semelha a um graveto em surto neurótico. Feito de engrenagens sumárias e onipresente no ruído incisivo, o grilo tem por ofício rasgar as cortinas da noite. Dizem que o potente aparelho sonoro localiza-se na nervura das asas anteriores, apenas dos machos. Às grilas, silenciosas e certamente desamadas (por isso nunca dão berço, carinho e tetas aos grilinhos), é dada a prerrogativa de gerar a alta densidade populacional de grilos, no moto-contínuo das estridências da vida.



 
 

Não querendo polemizar com o rigor e sacerdócio dos mais obstinados grilólogos, diria que os grilos – inseto ou na versão humana – nasceram para a função patológica da aporrinhação. Claro, sou leigo no assunto, e sobre o tema devem existir teses aprovadas com distinção e louvor, com a chancela de vetustos órgãos nacionais fomento à pesquisa. Isto, nos vários campos da ciência, da zoologia à semiótica (esta, a mais fecunda encarnação intelectual do grilo). Leigo, repito, não tive acesso às certamente perspicazes reflexões semióticas sobre o cricri, onomatopeia eloquente do personagem em questão.

 
 



Poucos nomes da fauna derivaram tantas e novas palavras. “Gatuno” é malandro que furta, em paralelismo com o gato; o que faz “cachorrada” aprontou alguma com alguém; “borboleteante” é o sujeito volúvel, que vaga como borboleta. Porém, beirariam o vale dos abusos verbos como “andorinhar”, “besourar”, “onçar” e suas flexões. O grilo, porém, nos deixou uma fortuna léxica. Diz-se que alguém “grilado” padece de desassossego; quando algo possui “grilo”, a situação está ruça; motor “grilando” precisa ir ao mecânico; adolescente “bicho-grilo” é de lascar.





A Bug's Life (Vida de Inseto).
W. Disney Pictures, 1998.



Pelo que segue, o grilo é mais danoso que seus primos, os nefastos gafanhotos. Fez-se comparsa dum dos maiores cancros do Brasil: o grileiro. Grilos, grilagens relacionam-se à apropriação de terras públicas e privadas, por meio de escrituras fraudulentas. Grileiros, inda hoje, mobilizam o Judiciário, Ministérios e CPIs, quase sempre  inóquos. A injustiça agrária, a discrepância entre riqueza e miséria, as expropriações legalizadas, o genocídio aos indígenas, o coronelismo feudal e aberrações políticas são, em grande parte, herança cultural da grilagem, grileiros e (por que não dizer?), do pérfido bichinho, o grilo.



Pe. Victor Asselin. Grilagem.
Petrópolis: Vozes, 1982.


 
Monteiro Lobato, no livro A Onda Verde e o Presidente Negro, revela a receita: primeiro, falsificavam a escritura da terra; depois, para dar ao documento aparência antiga, colocavam-no numa caixa infestada de grilos. Semanas após, corroída e amarelada por substâncias liberadas pelos bichos, a papelada parecia envelhecida, autêntica. Eia, pois, a orquestração monótona do grilo e a alquimia esperta de seu mais próximo transgênico: o grileiro. Galopando por campos e cidades, esse empesteamento patrimonial e vergonhoso nos ata aos modos de antanho que persistem té agora. E emburrecem o país.





foto: Sebastião Salgado







sexta-feira, 1 de junho de 2012

VISTE KOYAANISQATSI?








O Cronista na Praia
 (ilustração: Pelicano)



Jamais saberei se estás em minha idade: um inapelável sessentão. Ai, tantas pedradas, quantas notas em dó, muito vinho avinagrado na garganta! Fumando umas coisas, víamo-nos uns nos outros e nos relacionávamos com a natureza, entre Pink Floyd, Charlie Parker e Joan Baez. Nem posso adivinhar, dileto leitor, em que ocasiões te bate a sensação de tempo perdido. Mas, se nunca o tens, não te felicito. O tempo nos pesa e haverá entre nós o liame irreversível de nos havermos estado no eito da mesma ponte: a loucura dos anos que passaram.






Cena de Koyaanisqatsi (1982), de Godfrey Reggio




Apresento-me.  Sou da geração dos filmes de Godard. E os tínhamos sem renitência, pois não era de bom tom  (e nem o queríamos) abandonar as sessões de cinema pela metade. Nem namorávamos a contento, alucinados pelos intermináveis planos-sequências,  montagens descontínuas, gestos improvisos e diálogos etéreos, decerto em alegoria à fome no mundo, à injustiça e censura às liberdades individuais. Perturbadores eram os encontros com os amigos, taciturnos cinéfilos: “E aí, gostaste?” E respondíamos reverenciais e solenes: “Jean-Luc é o máximo!”.






Koyaanisqatsi (1982)




Vivi o drama de acostumar-me a mais essa dissimulação. Só depois alguém opinou que os franceses faziam filmes baratos, chatos e difíceis de entender, ou seja, de arte. E os louvávamos: era nossa reação ao imperialismo ianque e suas guerras. Os tais realizavam fitas caras e fáceis, ao gosto do povaréu. Alienados! – gritávamos com náusea. Apreciávamos o experimental, o aleatório, a película em branco e preto com o beneplácito da Nouvelle Vague e os Cahiers du Cinéma.





Koyaanisqatsi (1982)



Ufa, por quantas noites queimei tutano esperando Godot em ciclos de conferências sobre semiótica e estruturalismo, o desconstrucionismo e maquinações tais que reduziriam a zero os enigmas do mundo!  Não me recordo [esqueci-me de dizer, estou numa praia] se foi Fellini quem escarneceu assinalando que, para se obter uma cena “de arte” bastava filmar uns minutos com a câmera fora de foco.  Resultariam mechas de intenções, brumas de sentidos que instauravam uma aura vanguardista a questionar o establishment, enfim, obra aberta a vagas interpretações.





A trilogia



Viste Koyaanisqatsi?  Era assim, filme-cabeça duma trilogia acachapante. Invertia o papel da música no cinema. Sorvíamos os acordes minimalistas de Philip Glass. Deslumbrei-me ao descobrir que o músico era taxista de Manhattan.  Em Koyaanisqatsi (Life out of Balance), a mostrar o desequilíbrio da existência, nuvens em movimento anunciavam catástrofes, flores se abriam num átimo, alheias à ordem do mundo e à multidão que ia e vinha atormentada, como formigas em fim de outono.





Koyaanisqatsi (1982)




Tudo à contramão dos conceitos retilíneos e à aritmética inteligível das frases, na cadência do tempo que me pôs vincos no rosto e esta fatiga sexagenária. No solilóquio de agora, aqui, à beira do mar, o violão, o cigarro de maço e esta lua de ilusões. Ondeado pela confissão duma gesta de inúteis façanhas, mescla de heroicidade e agonia, em tedioso contato contigo, oh leitor.





O cronista naqueles tempos,


É  tudo verdade,
tudinho.























terça-feira, 1 de maio de 2012

FIDALGOS E NINGUÉNS







Pintura Rupestre - Cueva de Altamira (Espanha)





Macondo era entonces una aldea de veinte casas de barro y cañabrava construídas
a la orilla de un rio de águas diáfanas que se precipitaban por un lecho de piedras
pulidas, blancas y enormes como huevos prehistóricos. El mundo era tan reciente, que
muchas cosas carecían de nombre, y para mencionarlas había de señalarlas con el dedo.


García Márquez. Cien Años de Soledad





No princípio, quando o mundo então pequeno, as gentes eram em si mesmas e nos bastava tê-las nos olhos. Ao mencioná-las, pouquíssimos sons: Eva, Esaú, Abel e Lia. Porém, por atenderem ao convite das alturas e, sobretudo, por gostarem disso, os viventes foram fecundos e se multiplicaram. E, em pouco, o mundo se viu apinhado de Elias, Josés e Sofias, tantas e tantos que careciam de especificações: “Severino da Maria, do finado Zacarias, lá da Serra da Costela, limite da Paraíba”. E, pra se distinguirem dos demais, impuseram-se epítetos e qualificativos apostos: Alexandre, o Grande; Manuel, o Venturoso; Isabel, a Redentora; Collor; o Caçador de Marajás...







Collor, o Caçador de Marajás
 ex-presidente do Brasil




Individuações suscitaram os apelidos de família ou sobrenomes. Assim, em louvor à terra natal, patriarcas fizeram herdeiros os de Lisboa, de Coimbra, de Assis, de Toledo, de Holanda, Romanos, de Pádua, Toscanos e Parises. Também os do Vale, do Monte, do Porto, da Costa, das Neves e Monteiros, da Rocha,  Castelos e Pedrosos, do Prado, do Rego, Salinas, Barrosos e Ribeiros. Atributos dalgum progenitor prolongar-se-iam nos Calvos, Penteados, Magris, Longos, Maldonados, Fortunatos e Leais, Pagotos, Falícios, Francos, Amados e Amarais, Puritas, dos Reis, Furtados e Modestos, Verdes, Cândidos, Brancos, Morenos e Negrões, Vermelhos, Pacíficos, Valentes, Severos, Botelhos e Brandões.




 Tor a Prehistoric Odyssey, de Joe Kuberty



Brotaram os Ramos, Carvalhos e Oliveiras, Pimentas, Figueiras e Pinheiros, Arrudas, Pereiras e Nogueiras, assim como os Matos, Silvas e Silveiras. E linhagens de bichos: Galos, Pintos, Aranhas e Baratas, Raposos, Carneiros, Cabreiras, Aguiares e Bezerras. Se o senhor de antanho achegava-se aos pescados, inaugurava estirpes de Peixotos, Vieiras, Sardinhas, Piranhas, Delfins e Camarões. Da lida diária nasceram os Linhares, Guerras, Pires, Botas, Motas, Machados e Espadas, Trabucos, Barbeiros, Ferros, Pratas e Ferreiras, Limas, Cunhas, Estradas, Correias e seus Juniores, Filhos e Netos.

 



Alley Oop (Brucutu), de V. T. Hamlin





Com a ganância como fetiche original (Caim significa possessão), inventaram de retalhar a terra e negociá-la aos metros quadrados. É que, para o usufruto de muito, uns poucos houveram por bem achacar os demais. E, vendo lucro até com o rabo dos olhos, acharam pertinente extorquir os semelhantes, confiscando-lhes té mesmo os sobrenomes. Assim nasceram os de Jesus, dos Santos e Santanas, dos Anjos, da Cruz e do Espírito Santo, além dos que, de tão bastardas descendências, vieram ao mundo por milagre do próprio Nascimento.


 

Captain Cavern (Capitão Caverna),
de Joe Ruby e Ken Spears




Urdiram-se ressentimentos. E, como cada fruto carrega em si patrimonial semente, legitimou-se que alguns Lobos devorassem os Coelhos; Leões e Casagrandes aos Cordeiros. Nessa tensão é que se deram invasões e descobertas de outras plagas. Genealogias tornaram-se senhas para a conjugação de “possuir” e “mandar”. Valia aos fidalgos a marca dos antepassados, um designar extenso como latifúndios e que incutisse medo nos vassalos. Num país atlântico, Pedro II veio a ser Sua Alteza Real Dom Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga. Nessa mesma sesmaria alastraram-se os Zés. Ninguéns úteis aos incluídos e agregados. Zés tíbios, retirantes desnaturizados, pagadores de tributos. Dos Anzóis.






Os Retirantes (1944), de Cândido Portinari. Óleo s/ tela,
103 x 97 cm, Museu de Arte de São Paulo 'Assis Chateaubriand'




Vi cómo eran elegidos los pedestales de la patria.
A las once de la mañana llegaron del campo las carretas atiborradas de inquilinos.
Era en invierno, mojados, sucios, hambrientos, descalzos,
los siervos de Chimbarongo descienden de las carretas,
torvos, tostados, harapientos, son apiñados, conducidos con una boleta en la mano...


Elección en Chimbarongo, de Pablo Neruda





sábado, 31 de março de 2012

MILLÔR FERNANDES








   -  50% dos pacientes morrem de médico!  -   





Humildemente ouso referir-lhe, talvez pelas costas, já que se foi. A incansável e aguçada inteligência criativa superaram em muito a maioria dos literatos, jornalistas e pensadores dos últimos tempos. Liberdade Liberdade (1965, com Flávio Rangel) foi um marco do teatro engajado; suas peças originais e inúmeras traduções de clássicos e contemporâneos são incomparáveis contribuições à dramaturgia nacional; a produção gráfico-visual, prosa literária e poemas breves em livros, jornais e revistas revelam uma das mais instigantes e provocativas personalidades brasileiras do decênio de 1940 até hoje. Popular, anedótico e universal, Millôr era fora de série.

   










Confessava com amarga sinceridade: não é que com a idade você aprenda muitas coisas; mas você aprende a ocultar melhor o que ignora.  Até 1962, assinava “Vão Gogo”, em analogia ao grande pintor pós-impressionista. Depois assumiu “Millôr”, com “l” duplo e chapeuzinho no “ô”, aceitando as armadilha da caligrafia esgarranchada. Foi registrado como “Milton”.  Na escola, o “t” virou “l”, o corte mal posicionado da letra virou circunflexo e o “n”, “r”. Deu Millôr.




Morto de ciúme
Sob a luz da lua
Vagalume lume



Escrevia por aforismos, o mesmo artifício utilizado por Hipócrates para ensinar medicina. Expressava-se em breves, pensativas e agudas sentenças. Numa “lembrança genética” ao curandeiro grego, proclamava com malandrice que a anatomia é uma coisa que os homens também têm, mas que, nas mulheres, fica muito melhor.  Seu método implicava o virtuosismo da arte de escrever, proficiência para os jogos de sentidos e ruptura com o psicologicamente esperado.




Pega o trem pela traseira
A tempestade
Passageira



Millôr mexia com o estabelecido e captava o leitor no contrapé dos conceitos.  Nessa linha, observou com desconcertante lógica que de todas as taras sexuais, não existe nenhuma mais estranha que a abstinência. Irônico, recomendou: “jamais diga uma mentira que não possa provar”. Lírico, fitava o humano com olhos fatalistas: viver é desenhar sem borracha.  Perspicaz, jogava em nossa cara que não ter vaidades é a maior de todas. E exclamava pessimista: como são admiráveis as pessoas que não conhecemos bem!






Outra joia de seu extraordinário engenho criador foram os haicais e parábolas rimadas.  Indagava: colcha mais dura que a lousa da sepultura? E observava tragicômico: Aniversário é uma festa pra te lembrar do que resta.






Millôr foi recusa ao “espírito de rebanho”, o anticlichê flagrado no pulo do gato, o xeque-mate aos padrões usuais. Era um gênio antidogmático e que se anunciava comoum escritor sem estilo”. Sem estilo e paradoxalmente único. Não cabe nos escaninhos comuns dos grandes realizadores. Ano após ano, corporificou o maravilhoso atrevimento da criação, sensibilidade e intelecto. Antecipando-se à morte que agora se deu, assim se despediu: É meu conforto: da vida me tiram morto.





(Millôr Fernandes, 1923-2012)





segunda-feira, 5 de março de 2012

DOM QUIXOTE E OS GOVERNANTES








Esta e demais lustrações são litogravuras
 do francês Gustave Doré (1832-83)





Dom Quixote é uma daquelas obras-primas do engenho e refinamento humano. Mas parece escrito por mãos superiores. Narra a história dum velho fidalgo que, de tanto ler romances de cavalaria, imagina-se, ele próprio, um extemporâneo cavaleiro andante. E, no frenesi dos delírios, sai na ânsia de endireitar as torpezas do mundo, em socorro dos aflitos e injustiçados. Seu escudeiro, o lavrador Sancho Pança, é seduzido pelas venturas e aventuras do herói sonhador.





 
 

Na segunda parte (1615), Quixote e Sancho são recebidos no Castelo dos Duques. Como os moradores já conheciam a fama do personagem, por o terem lido na primeira parte (1605), pregam-lhe todo tipo de troças e patifarias. No entanto, como não via nos outros nenhum tipo de maldade, imagina que as afrontas recebidas o homenageavam. Em certo momento, prometem a Sancho uma ilha para governar. Acreditando ser verdade, Dom Quixote explica ao companheiro sobre como deveria se pautar no exercício do poder (Cap. II-XLII).







 

Foram muitos os alertas a Sancho acerca dos subornam, importunam e porfiam para estarem ao lado dos governos em busca de vantagens. “Os grandes cargos – ensina – não são senão um golfo profundo de confusões”. Previne-o para afastar-se dos venais e fraudulentos, e dos que usam o patrimônio coletivo em benefício pessoal, de correligionários, bajuladores, aliciadores de votos e parentes. Se ética e moralidade são pressupostos da honradez, mais seriam a de alguém no cargo de governante.








Apresento meia dúzia de preceitos ditos por Quixote ao escudeiro, em tradução livre do original. Como adornos da alma, alertam aos que exercem funções públicas, à época em que a obra foi concebida e em todos os tempos. E nos advertem como deveríamos governar a nós mesmos ao longo da existência.






1. Nunca te guies pela lei do bel-prazer, que costuma ter cabimento entre os ignorantes e presumidos. 2. Achem em ti mais compaixão as lágrimas do pobre, porém não mais justiça que as informações do rico. 3. Procura a verdade por entre as promessas e favores dos poderosos, como por entre os soluços insistentes dos despossuídos. 4. Quando tiveres que julgar, não descarregues todo o rigor da lei sobre o delinquente, pois não é melhor a fama do juiz rigoroso que a do compassivo. 5. Se acaso fizeres concessão às leis, que não seja com o peso da dádiva, mas da misericórdia. 6. Ao que castigares com obras não o trates mal com palavras, pois basta ao infeliz a pena do suplício, sem o acréscimo das más razões.






O velho Quixote, encarnação do ser em estado sublime, confunde-se com Miguel de Cervantes. Idealismo e realidade se misturam. Um nasceu para as páginas do livro; o outro para escrevê-las. Talvez tenham sido loucos-gênios ou gênios-loucos. Não importa. Persistem visionários e comoventes, a abastecer-nos de reflexões sobre as seivas mais puras do existirmos. Para nos tornarmos sensíveis e por isso melhores, nos intrincados enredos da vida.





Primeira edição da primeira parte (1605)