terça-feira, 1 de maio de 2012

FIDALGOS E NINGUÉNS







Pintura Rupestre - Cueva de Altamira (Espanha)





Macondo era entonces una aldea de veinte casas de barro y cañabrava construídas
a la orilla de un rio de águas diáfanas que se precipitaban por un lecho de piedras
pulidas, blancas y enormes como huevos prehistóricos. El mundo era tan reciente, que
muchas cosas carecían de nombre, y para mencionarlas había de señalarlas con el dedo.


García Márquez. Cien Años de Soledad





No princípio, quando o mundo então pequeno, as gentes eram em si mesmas e nos bastava tê-las nos olhos. Ao mencioná-las, pouquíssimos sons: Eva, Esaú, Abel e Lia. Porém, por atenderem ao convite das alturas e, sobretudo, por gostarem disso, os viventes foram fecundos e se multiplicaram. E, em pouco, o mundo se viu apinhado de Elias, Josés e Sofias, tantas e tantos que careciam de especificações: “Severino da Maria, do finado Zacarias, lá da Serra da Costela, limite da Paraíba”. E, pra se distinguirem dos demais, impuseram-se epítetos e qualificativos apostos: Alexandre, o Grande; Manuel, o Venturoso; Isabel, a Redentora; Collor; o Caçador de Marajás...







Collor, o Caçador de Marajás
 ex-presidente do Brasil




Individuações suscitaram os apelidos de família ou sobrenomes. Assim, em louvor à terra natal, patriarcas fizeram herdeiros os de Lisboa, de Coimbra, de Assis, de Toledo, de Holanda, Romanos, de Pádua, Toscanos e Parises. Também os do Vale, do Monte, do Porto, da Costa, das Neves e Monteiros, da Rocha,  Castelos e Pedrosos, do Prado, do Rego, Salinas, Barrosos e Ribeiros. Atributos dalgum progenitor prolongar-se-iam nos Calvos, Penteados, Magris, Longos, Maldonados, Fortunatos e Leais, Pagotos, Falícios, Francos, Amados e Amarais, Puritas, dos Reis, Furtados e Modestos, Verdes, Cândidos, Brancos, Morenos e Negrões, Vermelhos, Pacíficos, Valentes, Severos, Botelhos e Brandões.




 Tor a Prehistoric Odyssey, de Joe Kuberty



Brotaram os Ramos, Carvalhos e Oliveiras, Pimentas, Figueiras e Pinheiros, Arrudas, Pereiras e Nogueiras, assim como os Matos, Silvas e Silveiras. E linhagens de bichos: Galos, Pintos, Aranhas e Baratas, Raposos, Carneiros, Cabreiras, Aguiares e Bezerras. Se o senhor de antanho achegava-se aos pescados, inaugurava estirpes de Peixotos, Vieiras, Sardinhas, Piranhas, Delfins e Camarões. Da lida diária nasceram os Linhares, Guerras, Pires, Botas, Motas, Machados e Espadas, Trabucos, Barbeiros, Ferros, Pratas e Ferreiras, Limas, Cunhas, Estradas, Correias e seus Juniores, Filhos e Netos.

 



Alley Oop (Brucutu), de V. T. Hamlin





Com a ganância como fetiche original (Caim significa possessão), inventaram de retalhar a terra e negociá-la aos metros quadrados. É que, para o usufruto de muito, uns poucos houveram por bem achacar os demais. E, vendo lucro até com o rabo dos olhos, acharam pertinente extorquir os semelhantes, confiscando-lhes té mesmo os sobrenomes. Assim nasceram os de Jesus, dos Santos e Santanas, dos Anjos, da Cruz e do Espírito Santo, além dos que, de tão bastardas descendências, vieram ao mundo por milagre do próprio Nascimento.


 

Captain Cavern (Capitão Caverna),
de Joe Ruby e Ken Spears




Urdiram-se ressentimentos. E, como cada fruto carrega em si patrimonial semente, legitimou-se que alguns Lobos devorassem os Coelhos; Leões e Casagrandes aos Cordeiros. Nessa tensão é que se deram invasões e descobertas de outras plagas. Genealogias tornaram-se senhas para a conjugação de “possuir” e “mandar”. Valia aos fidalgos a marca dos antepassados, um designar extenso como latifúndios e que incutisse medo nos vassalos. Num país atlântico, Pedro II veio a ser Sua Alteza Real Dom Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga. Nessa mesma sesmaria alastraram-se os Zés. Ninguéns úteis aos incluídos e agregados. Zés tíbios, retirantes desnaturizados, pagadores de tributos. Dos Anzóis.






Os Retirantes (1944), de Cândido Portinari. Óleo s/ tela,
103 x 97 cm, Museu de Arte de São Paulo 'Assis Chateaubriand'




Vi cómo eran elegidos los pedestales de la patria.
A las once de la mañana llegaron del campo las carretas atiborradas de inquilinos.
Era en invierno, mojados, sucios, hambrientos, descalzos,
los siervos de Chimbarongo descienden de las carretas,
torvos, tostados, harapientos, son apiñados, conducidos con una boleta en la mano...


Elección en Chimbarongo, de Pablo Neruda





sábado, 31 de março de 2012

MILLÔR FERNANDES








   -  50% dos pacientes morrem de médico!  -   





Humildemente ouso referir-lhe, talvez pelas costas, já que se foi. A incansável e aguçada inteligência criativa superaram em muito a maioria dos literatos, jornalistas e pensadores dos últimos tempos. Liberdade Liberdade (1965, com Flávio Rangel) foi um marco do teatro engajado; suas peças originais e inúmeras traduções de clássicos e contemporâneos são incomparáveis contribuições à dramaturgia nacional; a produção gráfico-visual, prosa literária e poemas breves em livros, jornais e revistas revelam uma das mais instigantes e provocativas personalidades brasileiras do decênio de 1940 até hoje. Popular, anedótico e universal, Millôr era fora de série.

   










Confessava com amarga sinceridade: não é que com a idade você aprenda muitas coisas; mas você aprende a ocultar melhor o que ignora.  Até 1962, assinava “Vão Gogo”, em analogia ao grande pintor pós-impressionista. Depois assumiu “Millôr”, com “l” duplo e chapeuzinho no “ô”, aceitando as armadilha da caligrafia esgarranchada. Foi registrado como “Milton”.  Na escola, o “t” virou “l”, o corte mal posicionado da letra virou circunflexo e o “n”, “r”. Deu Millôr.




Morto de ciúme
Sob a luz da lua
Vagalume lume



Escrevia por aforismos, o mesmo artifício utilizado por Hipócrates para ensinar medicina. Expressava-se em breves, pensativas e agudas sentenças. Numa “lembrança genética” ao curandeiro grego, proclamava com malandrice que a anatomia é uma coisa que os homens também têm, mas que, nas mulheres, fica muito melhor.  Seu método implicava o virtuosismo da arte de escrever, proficiência para os jogos de sentidos e ruptura com o psicologicamente esperado.




Pega o trem pela traseira
A tempestade
Passageira



Millôr mexia com o estabelecido e captava o leitor no contrapé dos conceitos.  Nessa linha, observou com desconcertante lógica que de todas as taras sexuais, não existe nenhuma mais estranha que a abstinência. Irônico, recomendou: “jamais diga uma mentira que não possa provar”. Lírico, fitava o humano com olhos fatalistas: viver é desenhar sem borracha.  Perspicaz, jogava em nossa cara que não ter vaidades é a maior de todas. E exclamava pessimista: como são admiráveis as pessoas que não conhecemos bem!






Outra joia de seu extraordinário engenho criador foram os haicais e parábolas rimadas.  Indagava: colcha mais dura que a lousa da sepultura? E observava tragicômico: Aniversário é uma festa pra te lembrar do que resta.






Millôr foi recusa ao “espírito de rebanho”, o anticlichê flagrado no pulo do gato, o xeque-mate aos padrões usuais. Era um gênio antidogmático e que se anunciava comoum escritor sem estilo”. Sem estilo e paradoxalmente único. Não cabe nos escaninhos comuns dos grandes realizadores. Ano após ano, corporificou o maravilhoso atrevimento da criação, sensibilidade e intelecto. Antecipando-se à morte que agora se deu, assim se despediu: É meu conforto: da vida me tiram morto.





(Millôr Fernandes, 1923-2012)





segunda-feira, 5 de março de 2012

DOM QUIXOTE E OS GOVERNANTES








Esta e demais lustrações são litogravuras
 do francês Gustave Doré (1832-83)





Dom Quixote é uma daquelas obras-primas do engenho e refinamento humano. Mas parece escrito por mãos superiores. Narra a história dum velho fidalgo que, de tanto ler romances de cavalaria, imagina-se, ele próprio, um extemporâneo cavaleiro andante. E, no frenesi dos delírios, sai na ânsia de endireitar as torpezas do mundo, em socorro dos aflitos e injustiçados. Seu escudeiro, o lavrador Sancho Pança, é seduzido pelas venturas e aventuras do herói sonhador.





 
 

Na segunda parte (1615), Quixote e Sancho são recebidos no Castelo dos Duques. Como os moradores já conheciam a fama do personagem, por o terem lido na primeira parte (1605), pregam-lhe todo tipo de troças e patifarias. No entanto, como não via nos outros nenhum tipo de maldade, imagina que as afrontas recebidas o homenageavam. Em certo momento, prometem a Sancho uma ilha para governar. Acreditando ser verdade, Dom Quixote explica ao companheiro sobre como deveria se pautar no exercício do poder (Cap. II-XLII).







 

Foram muitos os alertas a Sancho acerca dos subornam, importunam e porfiam para estarem ao lado dos governos em busca de vantagens. “Os grandes cargos – ensina – não são senão um golfo profundo de confusões”. Previne-o para afastar-se dos venais e fraudulentos, e dos que usam o patrimônio coletivo em benefício pessoal, de correligionários, bajuladores, aliciadores de votos e parentes. Se ética e moralidade são pressupostos da honradez, mais seriam a de alguém no cargo de governante.








Apresento meia dúzia de preceitos ditos por Quixote ao escudeiro, em tradução livre do original. Como adornos da alma, alertam aos que exercem funções públicas, à época em que a obra foi concebida e em todos os tempos. E nos advertem como deveríamos governar a nós mesmos ao longo da existência.






1. Nunca te guies pela lei do bel-prazer, que costuma ter cabimento entre os ignorantes e presumidos. 2. Achem em ti mais compaixão as lágrimas do pobre, porém não mais justiça que as informações do rico. 3. Procura a verdade por entre as promessas e favores dos poderosos, como por entre os soluços insistentes dos despossuídos. 4. Quando tiveres que julgar, não descarregues todo o rigor da lei sobre o delinquente, pois não é melhor a fama do juiz rigoroso que a do compassivo. 5. Se acaso fizeres concessão às leis, que não seja com o peso da dádiva, mas da misericórdia. 6. Ao que castigares com obras não o trates mal com palavras, pois basta ao infeliz a pena do suplício, sem o acréscimo das más razões.






O velho Quixote, encarnação do ser em estado sublime, confunde-se com Miguel de Cervantes. Idealismo e realidade se misturam. Um nasceu para as páginas do livro; o outro para escrevê-las. Talvez tenham sido loucos-gênios ou gênios-loucos. Não importa. Persistem visionários e comoventes, a abastecer-nos de reflexões sobre as seivas mais puras do existirmos. Para nos tornarmos sensíveis e por isso melhores, nos intrincados enredos da vida.





Primeira edição da primeira parte (1605)






terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

GRACIOSA MADALENA











Nossa mãe e suas histórias! No cuidado de manter aceso o lenho do fogão, alentava-nos dalgum mistério da vida. Assim, se seguiram diário em nossa casa contos como as de santa Maria Goretti. Órfã de pai, cuidava dos irmãos menores. Certa vez, estando em casa a costurar, se lhe acercou um desconhecido grosseiro em palavras, obsceno em desejos. Ante a recusa ao estupro, traspassa-lhe o peito com o punhal. Em sangue, balbucia o perdão ao desalmado. Encolhíamo-nos em gesto de horror.




Santa Maria Goretti (imagem em gesso)



Certo dia, com a história latejante na cabeça, quis ver a santa em figura. Era pior do que nossa mãe nos narrara. Jazia sob o altar, em manta branca de cetim, num caixãozinho de vidro. Era certo que, por armadilha do desespero, fora enterrada viva. Transbordou-se naquela imagem o mais sufocante dos meus medos. E, toda vez, pedia à mãe que repetisse nossa história predileta: a graciosa Madalena.




Santa Maria Gorettti (imagem em gesso)


Sou camarada vivido, imerso num enxame de palavras. Entrevejo nossa mãe em meio à fumaça, buscando os fios que nos enredavam em histórias.  Madalena, a pecadora.  Perguntei de seu pecado. Desconcertada, respondeu com um enigma: luxúria. Fiz sinal de entendimento. Em casa o que nunca houvera foi luxo (que nem na casa da Goretti). E mesmo que fôramos “luxosos”, haveria sempre a provocação do Messias: atira a primeira pedra!  Essa era minha cena predileta: o desafio à tomada de consciência e a deposição de todas as armas. Amortecidas as fúrias, Madalena se alevanta alumbrada, plena, e beija um homem por primeira vez.



Ticiano. Maria Madalena (1565),
Museu Ermitage, San Petersburg (Russia).



Pecadora? Não. Imagem difusa em nosso espelho.  Eia, Musa dos quatro evangelhos, dos quatro cantos do planeta, nos quatro elementos da natureza. Madalena dos quatro mares, donzela dos quatro costados, das quatro fases da lua, dos quatro pontos cardeais. Sombra do pecado em toda gente, pendurado nas quatro hastes da cruz. Certo dia, vindo a saber que Jesus visitava um fariseu, eis que adentra na sala a dama da cidade. Quebrando as normas da casa, lentamente se aproxima. Traz num frasco o mais fino dos perfumes. Em silêncio, banha os pés do convidado e, afagando-os no rosto, enxuga-os com os cabelos. Após, na surpresa em que viera, afasta-se delicadamente.




El Greco. Maria Madalena (1580-85),
Nelson-Atkins Museum, Kansas City (USA).



Pecadora? A mulher subiu em aflição a pirambeira do calvário e ajoelhou-se ante a tragédia. Eia, ali, noiva morena dos injustiçados, enfermeira dos impuros, guardadora dos sepulcros e das ressurreições. Enlutada, aportou nalgum lugar, cheia de graça, alumiada por dentro...  Os feitiços da existência engendraram seus encantos de contos por contar, de um fogão em lume a aquecer os corações. Pra que houvesse a sagração duma proposta: ser um contador de histórias e partilhá-las consigo, dileto leitor.




 Rubens. Cristo e Maria Madalena (1580),
Pinacoteca de Munique (Alemanha).






quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

NOS TEATROS DA VIDA









Hugo Chávez, tempos atrás, injuriado com a derrota em plebiscito que lhe aumentaria o poder, traduziu num resmungo o que lhe parecera o triunfo da oposição: “Victoria de mierda!”. Inda quentes de hálito, suas palavras saltaram direto às manchetes, blogs e editoriais. Sublinhava-se o histrionismo do ditador venezuelano. Óbvio, o coronel-presidente não usou o vocabulário adequado à relevância dum estadista e talvez tenha escorregado um pouco mais na gangorra da civilidade. Mas, como de néscio só tem o de costume, valeu-se dum termo rude, porém simpático ao povaréu alienado.






Gentes, palavras e duplos sentidos. Ao fustigar os adversários, Chávez remoía por dentro a sensação de que o resultado eleitoral lhe fora uma porcaria. “Mierda”, derradeira exclamação dum velho desolado em Ninguém Escreve ao Coronel, de García Márquez, era de fato o que disse, e muito mais como explosão interior. Correlativamente, “mandar alguém à m.” não é imperativo de que o interlocutor se dirija à coisa referida.

Em teatro, nos anos de chumbo, m. figurava na lista das palavras malditas entre os inomináveis agentes da ditadura. Além de os textos serem mutilados, as  encenações  eram submetidas  a  censuras prévias.  Para isso, desembarcava não sei donde um tipo gordo em terno preto, que cochilava nas apresentações só pra ele. Porém,






como um robô aturdido, estatelava os olhos ao ouvir um m. "Por que não vetaram essa b. lá em Brasília?” – resmungava.  Propúnhamos-lhe acordos: a barganha de três m. por um fdp, importante numa cena. Se concordasse, festejávamos a “victoria de mierda”, com a sensação de que o preservador da moral e bons costumes fizera-se o amigão das artes, nos teatros da vida.






“Merdre!”, derivação prosódica de “merde” em francês, e dita exclamativamente, é a primeira palavra da peça Ubu Rei, de Alfred Jarry, dramaturgo na virada ao século 20. Lacônica, sintetizava indignação contra as tiranias de seu tempo, metáfora da estupidez reinante. O autor sucumbiu pelo atrevimento do signo, mas, há mais de um século, seu famoso texto sobrevive.





São tabus nos camarins teatrais os votos de “boa sorte”. Bate-se na madeira esconjurando o azar. Para os bons augúrios, o elenco se abraça e deseja m. a todos. Explica-se a superstição: Quando uma peça fazia sucesso, os sinais visíveis eram as muitas carruagens defronte dos teatros. E ali, os cavalos deixavam seus estrumes, a indicar casa lotada. Tudo encenação no mundaréu dos signos. Em paralelo, a vida real encena seus enredos, com a multidão de seres do bem e alguns da falange dos ínfimos. Esses, pálidos de virtudes, realmente fedem.








domingo, 18 de dezembro de 2011

A SOLDADO FEMININO













É a presidenta ou a presidente Dilma? Porém há casos em que a truculência masculina extrapola seus limites. Com todo respeito aos varões fardados e que têm por lema a preservação da ordem e segurança pública, as soldadas são demais!  Heresia! – esbravejarão em censura os puritanos das normas linguísticas.  Nãoflexão de gênero parasoldado”, tampouco se diz “corajosa soldado”, mas é soldado mesmo, inflexível! No caso das mulheres fardadas, não se considera a pessoa, mas o cargo ou profissão!





Se dizemos o médico, a médica, o garçom, a garçonete, por que não a soldada?  Mesmo os nomes comuns de dois gêneros distinguem o feminino pela presença do artigo ou outro determinante.  São “aquela jornalista”, “a estudante”, “as desacorçoadas boias-frias”. Porém às soldadas...  No início do mês recebem o minguado soldo e, como todos os soldados de quaisquer patentes, são soldadas. Que segregação é essa – repito – à intrépida e valorosa militar?







Ensina Carl Jung: na feminilidade, a alma do mundo. Nela residem nosso potencial afetivo, a espiritualidade, as intuições proféticas, o sonho quimérico de amor e proteção. Quiçá pela natureza e atributos femininos, é raro à diligente funcionária pública expressões de truculência e abusos de poder. Trabalham de modo compassivo, inspiram confiança, dão delicado toque de refinamento ao batalhão. Sem que se imponham ostensivamente, têm o poderio atávico da mulher, trazem implícito o respeito de si e da sociedade.




 



As gramáticas se omitem, fingem que não é comigo. Os dicionários que, no aquartelado dos conceitos, enfeixam o espírito cultural da nação, registram “soldado no masculino. Referem-se ao viril e destemido guerreiro de antanho que recebia soldo. Ignoram as soldadas do presente. São porta-vozes de nossa macheza e decerto também por isso os chamamos “pais dos burros”. Fica-nos o dever ético de tê-las como pessoas sexuadas, mães e companheiras, tratando-as no feminino: a digníssima soldada.



 
No Chile, a ex-presidente Michelle Bachelet, batalhando a reconciliação da nação, confiou a chefia de segurança do palácio La Moneda a uma “carabinera”, quer dizer, a uma soldada. Nada mais simbólico e civilizador! Aliás, no país de Gabriela Mistral e Neruda, a Guarda Nacional integra-se no meio a meio: soldadas e soldados.  Por que no Brasil não nos reconciliamos com a razão e a sensibilidade?






Gina Lollobrigida observou: “Glamour é quando um homem percebe que uma mulher é uma mulher”.  No entanto, deixando que gritem o empedernido machismo e o espírito patriarcal que historicamente nos governa, lemos o absurdo em sua fardaSoldado Feminino PM Beatriz”. Dia desses, toquei no assunto com uma solícita soldada. Ela franziu a testa com ternura e respondeu com outra pergunta, entre o respeito à disciplina militar e sua convicção de cidadã: “Estranho, né?”. E, enigmática como a Mona Lisa, discretamente, sorriu.






(Imagens captadas na web. Permitam-me os fotógrafos
e as mulheres dos retratos.  Agradecido.)