quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

NOS TEATROS DA VIDA









Hugo Chávez, tempos atrás, injuriado com a derrota em plebiscito que lhe aumentaria o poder, traduziu num resmungo o que lhe parecera o triunfo da oposição: “Victoria de mierda!”. Inda quentes de hálito, suas palavras saltaram direto às manchetes, blogs e editoriais. Sublinhava-se o histrionismo do ditador venezuelano. Óbvio, o coronel-presidente não usou o vocabulário adequado à relevância dum estadista e talvez tenha escorregado um pouco mais na gangorra da civilidade. Mas, como de néscio só tem o de costume, valeu-se dum termo rude, porém simpático ao povaréu alienado.






Gentes, palavras e duplos sentidos. Ao fustigar os adversários, Chávez remoía por dentro a sensação de que o resultado eleitoral lhe fora uma porcaria. “Mierda”, derradeira exclamação dum velho desolado em Ninguém Escreve ao Coronel, de García Márquez, era de fato o que disse, e muito mais como explosão interior. Correlativamente, “mandar alguém à m.” não é imperativo de que o interlocutor se dirija à coisa referida.

Em teatro, nos anos de chumbo, m. figurava na lista das palavras malditas entre os inomináveis agentes da ditadura. Além de os textos serem mutilados, as  encenações  eram submetidas  a  censuras prévias.  Para isso, desembarcava não sei donde um tipo gordo em terno preto, que cochilava nas apresentações só pra ele. Porém,






como um robô aturdido, estatelava os olhos ao ouvir um m. "Por que não vetaram essa b. lá em Brasília?” – resmungava.  Propúnhamos-lhe acordos: a barganha de três m. por um fdp, importante numa cena. Se concordasse, festejávamos a “victoria de mierda”, com a sensação de que o preservador da moral e bons costumes fizera-se o amigão das artes, nos teatros da vida.






“Merdre!”, derivação prosódica de “merde” em francês, e dita exclamativamente, é a primeira palavra da peça Ubu Rei, de Alfred Jarry, dramaturgo na virada ao século 20. Lacônica, sintetizava indignação contra as tiranias de seu tempo, metáfora da estupidez reinante. O autor sucumbiu pelo atrevimento do signo, mas, há mais de um século, seu famoso texto sobrevive.





São tabus nos camarins teatrais os votos de “boa sorte”. Bate-se na madeira esconjurando o azar. Para os bons augúrios, o elenco se abraça e deseja m. a todos. Explica-se a superstição: Quando uma peça fazia sucesso, os sinais visíveis eram as muitas carruagens defronte dos teatros. E ali, os cavalos deixavam seus estrumes, a indicar casa lotada. Tudo encenação no mundaréu dos signos. Em paralelo, a vida real encena seus enredos, com a multidão de seres do bem e alguns da falange dos ínfimos. Esses, pálidos de virtudes, realmente fedem.