quinta-feira, 27 de outubro de 2011

CARTILHA SODRÉ











Era um livro-brochura grampeado na dobra. Na capa fosca e esverdeada, uma menina de tranças sorria pra gente e nos convidava à ventura das primeiras letras. Com poucas páginas, tinha o tamanho parecido ao das cadernetas com que comprávamos fiado no empório, ou dos almanaques que nos entretinham em viagens de trem. A autora, nossa heroína, Benedicta Stahl Sodré, aparecia com letras miúdas na capa. Nossa cartilha alcançou quase 300 edições e multidão de exemplares vendidos, bem baratinhos.





 

(primeira aula, memorizando sons e sentidos)



Recordo a primeira lição.  Era da pata e, evidentemente, tinha uma pata branca pairando num lago.  “A pata nada. Pata-pá, nada-ná”, repetíamos em voz alta mirando a figura e as letras redondas de professora.  Reconhecemos o “p”, o “n” e a primeira vogal, aquela da abelha. Depois vieram o “g” de gato, o “m” dum macaco contente e o “z” de Zazá zanzando na lição de novembro.  




 


O método de ensino – segundo os entendidos – era o fônico, que associava letras e desenhos aos sons dos vocábulos. Com alegria de aprender, desafiávamos em batalhas gritantes a turma da sala ao lado, bradando em coro: “Vovô viu a uva! Vovô viu a uva!”.  Eles, que aprendiam na Caminho Suave, respondiam ruidosos, tropeçando em consoantes: “O rato roeu a roupa do rei de Roma!”. A Suave não era grampeada nem parecia caderneta. Achávamos bonita, com um casal de crianças na estrada apontando com o dedo o futuro. Mas era tanto assim (talvez porque não a tivéssemos). Pois a turma rival, com a qual competíamos também em caligrafia e aritmética, não escondia disfarçada inveja da nossa cartilha, a velha Sodré.





Naquela época muitas crianças de ponta de vila, como nós, nem iam à escola.  Mas os que a frequentávamos, às vezes de pés no chão, saíamos lendo, escrevendo e entendendo o que líamos. O boletim não era uma folha impressa no computador, mas atestado de conduta intelectual, com bem-vindas notas azuis e assustadores vermelhos escritos à mão. O material escolar cabia no pequeno bornal dos garotos ou em bolsas das meninas. E, sem que percebêssemos, estávamos na enfeitiçante selva de Ubirajara ou nos encantávamos com o despertar adolescente de Clarissa, fervendo em nós a puberdade, apaixonados por ela.





Hoje, a alfabetização não passa duma estatística do governo e o analfabetismo funcional é um cruel. Os livros, glamorosos e caríssimos, fazem a festa de editores e livreiros no início dos anos letivos. Encenam uma peça ornamental e transformam filhos e pais em submissos reféns.







Certas escolas, a par de materiais tão sedutores e às vezes inócuos, usam tais apetrechos como molas a justificar o alto preço das mensalidades, agora em 13 prestações. O arsenal pedagógico é tanto e tão volumoso que necessita de maletas com rodas para o seu transporte. À parte isso, a vida é nota zero em solidariedade, um reality show desenfreado e consumista. Tenho saudade da Sodré silente na algibeira das lembranças, dormindo num picuá brim.








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(A charge acima foi captada na web. Peço licença ao autor e o agradeço.)




11 comentários:

  1. "é nóix na fita!! Somos nozes no pedaço!"

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  2. Só você, Romildo, só você para nos encantar e, ao mesmo tempo, nos levar à reflexão.
    Isto é ser humanamente grande.
    Grato por tudo
    Wilson

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  3. Que delícia, num dia chuvoso como este ,com tempo permitido por um feriado no início da semana, ser iluminada com seus textos, Romildo!
    Obrigada e um dia de doce descanso para você
    Bel

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  4. Como hj. esta um dia muito bom pra ler estou aqui voltando a infância com a cartilha Sodré e o Caminho Suave....foi suave mesmo aprender a ler foi tão prazeroso que nem percebi....Hoje também me lembrei fechando os olhos e ouvindo o barulho da chuva como era gostoso os pingos como garoa caindo só no rosto.....minha casa não tinha forro e dormir com chuva era muito bom....um grande prazer encontrar você...abraços

    Bernardete Grzybv

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  5. COmpartilho este texto de um amigo do JManoel De Aguiar Barros porque achei fantástico. Quantas lembranças ele me trouxe. Eu era da turma da Cartilha Sodré. E tinha um bornal de lonita branca e levava pão com manteiga e banana de lanche, numa escola pública de Araraquara. E minha mãe comprou as coleções: O Mundo da Criança, Pequenu, Ler e Saber, Enciclopédia Larrouse, a coleção dos livros de Machado e do José de Alencar. E nós, os filhos, lemos tudo isso. Lembro da minha primeira palavra que consegui ler no Mundo da Criança - dromedário! Lembranças. Concordo com o Romildo, hoje temos nota zero em solidariedade e emoções!
    Marta Pagotto

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  6. Ao ler sobre a Cartilha Sodré, minha mente , como um pássaro apressado, voando na velocidade do pensamento, trouxe novamente as letras escritas com tanto carinho, na lousa verde, pelas mãos sublimes de minha querida professora.Tempo presente, tempo distante, fragmentos da vida!!!!!!!!

    Sagramour Benedicto

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  7. Querido escritor, você conhece essa cartilha Sodré inteirinha? Conhece a lição da letra "muda"? Pois essa lição me rendeu muita bronca quando eu era criança. É que aparecia um exemplo de frase com duas letras mudas: "Como Edna é ignorante". Mesmo sem entender direito o adjetivo, percebi que não era coisa boa e, nos meus sete anos de idade, me senti diminuida com aquele absurdo totalmente antipedagógico...rs..
    Abraço e saiba que sou sua fã!

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  8. Que delícia de texto, Romildo, e que saudade da minha "Caminho Suave"!
    Abraços,
    Ida Regina.

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  9. Lindo texto! Me fez viajar pelo passado! Parabéns!

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  10. Eu aprendi a ler em casa na Cartilha Sodré. Bons tempos...

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