terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

GRACIOSA MADALENA











Nossa mãe e suas histórias! No cuidado de manter aceso o lenho do fogão, alentava-nos dalgum mistério da vida. Assim, se seguiram diário em nossa casa contos como as de santa Maria Goretti. Órfã de pai, cuidava dos irmãos menores. Certa vez, estando em casa a costurar, se lhe acercou um desconhecido grosseiro em palavras, obsceno em desejos. Ante a recusa ao estupro, traspassa-lhe o peito com o punhal. Em sangue, balbucia o perdão ao desalmado. Encolhíamo-nos em gesto de horror.




Santa Maria Goretti (imagem em gesso)



Certo dia, com a história latejante na cabeça, quis ver a santa em figura. Era pior do que nossa mãe nos narrara. Jazia sob o altar, em manta branca de cetim, num caixãozinho de vidro. Era certo que, por armadilha do desespero, fora enterrada viva. Transbordou-se naquela imagem o mais sufocante dos meus medos. E, toda vez, pedia à mãe que repetisse nossa história predileta: a graciosa Madalena.




Santa Maria Gorettti (imagem em gesso)


Sou camarada vivido, imerso num enxame de palavras. Entrevejo nossa mãe em meio à fumaça, buscando os fios que nos enredavam em histórias.  Madalena, a pecadora.  Perguntei de seu pecado. Desconcertada, respondeu com um enigma: luxúria. Fiz sinal de entendimento. Em casa o que nunca houvera foi luxo (que nem na casa da Goretti). E mesmo que fôramos “luxosos”, haveria sempre a provocação do Messias: atira a primeira pedra!  Essa era minha cena predileta: o desafio à tomada de consciência e a deposição de todas as armas. Amortecidas as fúrias, Madalena se alevanta alumbrada, plena, e beija um homem por primeira vez.



Ticiano. Maria Madalena (1565),
Museu Ermitage, San Petersburg (Russia).



Pecadora? Não. Imagem difusa em nosso espelho.  Eia, Musa dos quatro evangelhos, dos quatro cantos do planeta, nos quatro elementos da natureza. Madalena dos quatro mares, donzela dos quatro costados, das quatro fases da lua, dos quatro pontos cardeais. Sombra do pecado em toda gente, pendurado nas quatro hastes da cruz. Certo dia, vindo a saber que Jesus visitava um fariseu, eis que adentra na sala a dama da cidade. Quebrando as normas da casa, lentamente se aproxima. Traz num frasco o mais fino dos perfumes. Em silêncio, banha os pés do convidado e, afagando-os no rosto, enxuga-os com os cabelos. Após, na surpresa em que viera, afasta-se delicadamente.




El Greco. Maria Madalena (1580-85),
Nelson-Atkins Museum, Kansas City (USA).



Pecadora? A mulher subiu em aflição a pirambeira do calvário e ajoelhou-se ante a tragédia. Eia, ali, noiva morena dos injustiçados, enfermeira dos impuros, guardadora dos sepulcros e das ressurreições. Enlutada, aportou nalgum lugar, cheia de graça, alumiada por dentro...  Os feitiços da existência engendraram seus encantos de contos por contar, de um fogão em lume a aquecer os corações. Pra que houvesse a sagração duma proposta: ser um contador de histórias e partilhá-las consigo, dileto leitor.




 Rubens. Cristo e Maria Madalena (1580),
Pinacoteca de Munique (Alemanha).