sábado, 8 de outubro de 2011

ZÉ DOS ANZÓIS

No princípio, quando o mundo então pequeno, cada gente era a si mesma e nos era suficiente tê-las nos olhos. Ao referirmos a elas, bastavam poucas sílabas: Eva, Levi, Caim, Esaú e Lia. Porém, por atenderem aos imperativos das alturas e, sobretudo por gostarem disso, os viventes foram fecundos e se multiplicaram.  E em pouco, o mundo se viu cheio de Elias e Josés, Marias e Zacarias, tantos, que careciam se fazerem específicos: “Severino da Maria, do finado Zacarias, lá da Serra da Costela, limite da Paraíba”. E pra se distinguirem dos demais, alcunharam-se Alexandre, o Grande, Manuel, o Venturoso, Isabel, a Redentora, Fernando, o Caçador de Marajás, Lula, o pai do povo.




Nesse meio tempo é que inventaram os apelidos de família ou sobrenomes.  Se o patriarca se orgulhava do lugar onde nascera, fazia herdeiros os de Coimbra, de Pádua, de Assis, de Toledo, de Holanda, Toscanos, Romanos e Parises. Ou os do Vale, do Monte e Monteiros, da Rocha, do Prado, do Rego, Pedrosos e Ribeiros. Atributos dalgum progenitor prolongar-se-iam nos Calvos, Penteados, Morenos, Verdi e Bianchi, Furtados, Valentes, Francos, Felícios, Leais e Severos.  Em terras férteis, a seiva das vegetações inspirou estirpes de Ramos, Carvalhos, Oliveiras, Pimentas, Pinheiros, Pereiras, Arrudas, Figueiras, Nogueiras e até os Silva e Matos. E de bichos: Pintos, Galos, Aranhas, Baratas, Raposos, Aguiares, Bezerras e Lobos. Se o senhor de antanho achegava-se aos pescados, inaugurava linhagens dos Vieiras, Sardinhas, Peixotos e Camarões.  Na lida da existência em braços fortes nasceram os Machados, Espadas, Barbeiros e Cunhas.




Com o poder como libido e na ânsia de se ter mais, inventaram de retalhar a terra e negociá-la aos metros quadrados. É que, para o usufruto de tudo, uns poucos se houveram no direito de surrupiar os outros.  E tiveram inda mais como legítimo que uns poucos extorquissem corpo e alma de seus semelhantes, confiscando-lhes té mesmo os sobrenomes.  Assim, do nada, surgiram os tantos de Jesus, dos Santos, dos Anjos e do Espírito Santo, além dos que, de tão inexatas descendências, vieram à luz pelo encanto do próprio Nascimento. Nas tramas desse tecido, brotaram fios de mágoas e nós de ressentimentos. É que se fez natural, como na selva, que um Leão devorasse os Carneiros; um Lobo, aos Coelhos; um Mercadante, aos Ferreiros.




No tumulto, deram-se invasões em nome da cruz, dos cifrões e da moralidade. Genealogias já eram supremas senhas na conjugação do verbo “possuir”. Valia aos “filhos de algo” ou fidalgos o sobrenome familiar, um designar tão extenso e extenuante que incutisse medo nos vassalos. Num lugar atlântico, Pedro II veio a ser Sua Alteza Real Dom Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga. Nessa mesma sesmaria se dispersam os Zés. Os ninguéns eleitos pra eleger os sobrenomeados. Zés dos Anzóis.

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