![]() A palavra "parafuso" não se sabe donde veio, se do grego, aramaico ou do latim. A coisa "parafuso" existe pra andar à roda de si, como o tempo pontiagudo escavando a eternidade. Metálico, é sulcado pela fenda funda na cabeça, estigmatizando-lhe o sinal de mais ou menos, depende da chave (ai, como me enrolo com a philips na mão!). Viver na lua é ter um parafuso de menos, ou de mais - quem sabe? -, girante aqui no mundo. Gente baratinada é que entrou em parafuso, no obscuro dos pensamentos e inebriantes vinhos. Parafusos, coisas, tempos e palavras são a quintessência do giro sem fim. Não se sabe aonde chegar. Como alguém, desparafusado, a escrever a crônica de parafusos. ![]() ![]() Toda santa hora os humanos raciocinam, parafusam ideias. Não há outro jeito de pensar, senão com palavras! Não há outro modo de existir, senão com palavras! Como disse o filósofo, se parafuso, logo existo. E, parafusando, é assim que, num enlevo, a criança põe-se a pensar sem saber que pensou. Para o cronista, porém, atarraxado em palavras, o descobrimento de si e do mundo o colocou à anteporta da loucura. Loucura - confessa - donde poucas vezes conseguiu sair. Indaga: "Hoje, segunda-feira, segundo dia da semana... Por quê?". É óbvio, a segunda deveria ser a primeira-feira. Até se diz, convidativamente: "bom fim de semana!". E o camarada vai pra casa descansar. Também com o Altíssimo assim se deu. Pra aplacar a solidão primordial de ser único, fez a lida insana de criar o mundo, parafusando cada coisa em seu lugar. Após seis dias, porque ninguém é de ferro, descansou. Sucede que, sendo o Senhor o "dominus", o que domina e denomina, criou o dia de si: o domingo. Ora, se até na lógica divina extensiva à humana o dia do Senhor representa o fim, como pode ser o princípio? Definitivamente, a segundona brava é a primeira-feira, cê não acha? ![]() ![]() Outras minhocas esquentavam os parafusos do cronista: "Os nomes que dão aos meses, que absurdo!" Aprendera em criança que novembro, que lembra 9, é o mês 11; dezembro, que lembra 10, é 12; setembro, que lembra 7, é o mês 9. Não saiu da rota em parafuso até que enxergara, por meio de outras palavras, que os anos na antiga Roma começavam em março. Júlio César alterou o calendário e, numa ajeitada, o papa Gregório o reformou. Então, fevereiro, no passado, seria pra nós dezembro, fim de ano. E, só assim, novembro seria de fato 9. Contudo, inda mais encasquetado, o cronista pergunta: "Se resolveram mexer na contagem dos anos, por que mantiveram aos meses antigas palavras? Foi preguiça ou frouxidão dalgum parafuso?". ![]() A confusão não reside em palavras, mas nas pessoas que as criaram. Porém, se as inventaram para pensar, e se parafusam ideias com palavras, por que usam vocábulos tortos pra pensamentos retos? Ainda: se nos velhos tempos, o calendário iniciava em março e, ademais, se abril significava "abrir", por que março não é abril, o começo? Nesse ponto, se lhe perdeu a rosca - o cronista. Girou disperso em espiral, flutuante, como rolha intrusa na botelha de vinho. Tomou o Vallium e, formigando-lhe as antenas, esqueceu-se de si. Adormeceu. ![]() Que mês estamos, Beavis? |
sexta-feira, 21 de outubro de 2011
CRÔNICA DE PARAFUSOS
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