sexta-feira, 21 de outubro de 2011

O MANO PELICANO

 




Pelicano disse que eu era seu mano. Senti-me lisonjeado e crescido em família, pois virei mano, inda que órfão, do inesquecível Glauco, chargista da Folha de S. Paulo. Intrigado, busquei explicações. Decerto a fraternidade provenha duma coincidência nasal. Fui ao autorretrato de Bocage: "Magro, de olhos azuis, carão moreno, bem servido de pés, meão de altura, triste de facha, o mesmo de figura, nariz alto no meio e não pequeno... Nariz que Newton não quis descrever-lhe a diagonal. Nariz de massa infernal, que, se o cálculo não erra, posto entre o Sol e a Terra faria eclipse total!". Vale aduzir: o que se realça em nós, pelicanídeos, é o grande bico e o singular perfil. Daí, em nome artístico, o mano Pelicano.



 
 
Nesse vívido artista dos rápidos desenhos e das frases contundentes, sua rede de arguto pescador é jogada sobre o cotidiano em busca da graça repentina, dos pormenores de condutas, dos detalhes líricos, dos dramas, conflitos e distúrbios sociais. Lacônico, toca fundo os acontecimentos palpitantes.

 






Há décadas no jornalismo, consegue originalidade num panorama societário em que, segundo dizem, gesta-se num "país da piada pronta". Faz com desenhos uma sucessão de crônicas e editoriais vincados pelo dia-a-dia. O curto diálogo, a ironia, o subentendido, a superlativação em busca da graça, o desvio do psicologicamente esperado e a caricatura dos fatos e pessoas são pontas-de-lança desse cartunista. Invariavelmente, põe o leitor num malicioso e inteligente labirinto de conceitos.


 



Pelicano faz da interação com o cotidiano seu jeito de raciocinar e exprimir-se. Satírico, não raro comovente e humanista, sorri com sarcasmo do nonsense da vida. Com a elegância dos camaradas elegantes, espicaça a realidade através dos contornos, linhas, cores e palavras. Faz da profissão de artista um caderno de anotações de costumes. Conduz o leitor ao sorriso e à tomada de consciência. Coloquial, essa ave de vôos rasantes realiza com descortino um modo opinativo e arejado da comunicação moderna. Ave, Pelicano!


(César Augusto Vilas Boas - o Pelicano, engenheiro civil,
premiado cartunista e... meu mano).







Ilustrações: Salão Internacional de Humor de Piracicaba, Rede Bom Dia e

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