sexta-feira, 21 de outubro de 2011

MASCANDO CLICHÊS

 







Não sou rato de biblioteca, mas digo-lhe à boca pequena: aprecio os dicionários, pais dos inteligentes. Acaba de sair o "Pai dos Burros - Dicionário de lugares-comuns e frases-feitas" (2009, Arquipélago Editorial), de Humberto Werneck. À guisa de prefácio, o laureado autor estabelece um diálogo franco, mas enviesado, com o leitor. Expõe que muita gente coleciona borboletas para espetá-las numa placa. Ele, unindo o útil ao agradável, reuniu 4500 pérolas surradas da última flor do Lácio inculta e bela. Junta as peças dum quebra-cabeça. E assim, além de jornalista e escritor de estilo apurado, revela-se a bola da vez e tenta a sorte noutra fatia do mercado: a de dicionarista.








A bem da verdade, segundo Werneck, seu livro não visa a coibir abusos daqueles que, com as exceções de praxe, usam termos surrados como ornamentos de cultura e esnobação. Sem alçar voos mais altos, o "Pai dos Burros" não pretende ser um tapa de pelica ou puxão de orelhas naqueles, companheiros de infortúnio, redatores e discursistas afoitos. Pensando bem, nem os deixa em maus lençóis. Antes, e realizando na medida certa a lição de casa, os verbetes do escritor induzem a pensar sobre a quanto andamos na questão espinhosa do dizer, useiros e vezeiros da lei do menor esforço e apropriação de frases alheias e clichês.








Inda que o autor decline de afirmar, para bom entendedor meia palavra basta. Preenchendo a lacuna que faltava, é certo que seu livro põe em xeque e faz tremer nas bases os cronistas e escrivinhadores que usam e abusam de chavões e estereótipos. E nesse rol se incluiriam também, com o devido respeito, chefes de repartições e fiéis escudeiros, animadores de palanques, letristas de pagode, ghost-writers presidenciais, nobres edis (quando conseguem discursar), eminentes jurisconsultos e autores de petições, eloquentes tribunos, paraninfos, patronos de turmas e oradores em pronunciamentos de inaugurações e em atos fúnebres.








Todos sabem que as armadilhas da linguagem são uma faca de dois gumes. Nesse sentido, o livro de Humberto Werneck pega no contrapé os redatores e falantes que fazem do lugar-comum uma cortina de fumaça em meio à qual se escondem ou, aproveitando-se da ignorância, tentam se projetar. Gesto impensado, oportunismo banal ou ingênua pretensão? Seria chover no molhado afirmar que, a par desse livro, não se esgotam as possibilidades de cairmos na vala comum dos repetidores de formas banais.








O escritor mineiro, como sempre, faz uma das suas e, em terreno movediço, come quieto. Seu "Pai dos Burros" supera as expectativas. Induz, dum lado, a reflexão; doutro, o pé no freio. Sem dizer, mas dizendo, traz em seu bojo a exortação à liberdade de expressão com responsabilidade. Passa ao largo das gramatiquices, suas múltiplas facetas e vetustas leis. De certo modo imperdível, e nas devidas proporções, não custa o olho da cara. Por essas e outras, é pegar ou largar. Se não, é continuar alardeando os argumentos repisados nas frases-feitas deste artigo. Sem a menor dúvida e com lágrimas sentidas. E aí, adiós baby! Ninguém merece. Com certeza.






(banco de imagens: sites da web)




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