sexta-feira, 21 de outubro de 2011

A PELE DA SERPENTE

 

(Francamente, o rosto dele não foi esculpido à imagem dum profeta de Aleijadinho?)





Por mais que se escreva, é pouco para desvendar os abalos afetivos e choques de identidade por que passaram os imigrantes no crepúsculo de nossa história oitocentista. Do planalto de Piratininga, e empurrados à direita de quem desce o Tietê, os italianos eram uma legião de esperança. Em 12 anos (da Lei Áurea a 1900), desembarcaram em Santos mais de 400 mil esperançosos. Vieram com o sonho de "fazer a América". Porém, além do objetivo de esbranquiçarem o Brasil moreno, substituíram o braço escravo nas lavouras. Nas cidades, em ocupações servis, eram tachados como "carcamanos", devido à má fama de "calcar a mão" alterando a medição das balanças.


Vindos de aldeias pobres do Norte e Centro-sul da península, e vistos como polenteiros, suaram pra arrancar do chão o mantimento. Na guerra, a segregação os obrigava a mendigar salvo-conduto quando iam dum lugar a outro; na paz, abraçaram-se aos caboclos e se acaipiraram. Um amigo narrou-me que a documentação do bisavô o identificava como escritor. Custou entender que, na embarcação em que chegara, era o único que sabia escrever.


Repasso a história que me contou Percival Tirapeli, sensível autor de livros sobre arte brasileira. (Ele mesmo traz cinzelado na face um ângulo esculpido em pedra por Aleijadinho). Convivemos muito tempo por leituras recíprocas e singelos favores sem nunca nos vermos pessoalmente. No encontro, gestos de afetuosidade só possíveis numa terra cerzida com os retalhos da ausência. Relato-a com uma tinta a mais donde ressalta o caráter desses imigrantes.


O nono Luigi - disse-me Percival tamborilando a mesa - está sepultado com o primo Ambrósio num lugarejo conhecido pelas águas claras; no idioma indígena, Guapiaçu. Tinha estudos, era bonito, lia jornais e alfabetizava as crianças da colônia. Prosperou com uma pequena gleba, autorizado a comprar após anos de Brasil. Quando a nona morreu, jovem ainda, como não havia cemitério, foi sepultada em Cedral, distante da família. Por isso minha mãe, desde pequena - falou-me o amigo -, não teve quem lhe penteasse os cabelos.


Nos anos 40, o avô voltou à Itália pra se tratar de nó nas tripas. Reencontrou-se com os parentes e lhes trouxe o couro duma enorme sucuri. De espantoso, a pele curtida virou senha familiar. "Que terra é essa em que se arranca toco misturado com cobra e não se tem onde enterrar a nona?". Não houve resposta. Acrescentou más notícias: como a sobrinha estava demorando a parir, o marido deu-lhe um soco na barriga pra descer a criança. Cristina morreu.


Dia desses, Percival foi à Itália à procura dos antepassados. Fácil chegar a Oderzo, encostado em Treviso. Fazia graus abaixo de zero e mal distinguia, entre as indicações baralhadas na cabeça, a paisagem diluída em névoas. A casa ficava num aluvião, defronte e baldia como a estação do trem que derrama na Áustria. Bateu e uma severa senhora saiu à porta. Falou sobre o avô Luigi, mas ela quis saber da senha: "O que ele trouxe quando veio aqui?". "A pele da serpente!", respondeu. A matrona o abraçou comovida, e limpando da vista o pó do tempo, o convidou: "Entra, filho, a minestra tá na mesa!".









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