sexta-feira, 21 de outubro de 2011

PICASSO E OS MESTRES

 

O filme "Amadeus" (1984), de Milos Forman, enfoca o ódio do operista italiano Antonio Salieri por Wolfgang Amadeus Mozart. Compositor oficial da corte da Áustria, a inveja de Salieri por Mozart ardia-lhe nas entranhas a ponto - diz a lenda - de provocar a morte do gênio, em 1791, aos 35 anos. Numa das cenas, ao receber Mozart em Viena, o imperador tocou-lhe uma marcha composta em sua homenagem por Salieri. Quando lhe deu a partitura, Mozart a recusou, pois a havia memorizado. Ao piano, não só a executou com perfeição, como lhe fizera prodigiosas variações e melhorias.


O introito ilustra uma constante no temperamento e obra de Pablo Picasso. Seus amigos arrepiavam quando o pintor malaguenho os visitava no atelier. Olhava as telas, elogiava, e voltava pra casa para repintá-las bem melhor. Compulsivamente, pintava e pintava. Em ausência de um tema, bulia imatinativamente nos quadros dos outros, imitava seus contemporâneos e os mestres do passado, fazia-lhes apropriações, variações, caricaturas, adaptava-os à sua verve ardorosa e inquietude existencial e artística. Amiúde brincante (e até satírico), dessacralizava, parodiava, carnavalizava... Decompunha cenas originais ou as submetia ao difarce de um "espelho deformante", de tal modo que se realçassem como fingimentos picassianos, sonoras imitações dos objetos visuais imitados. Era seu jeito de aprochegar-se criticamente da vida como linguagem e transformá-la em nova vida.


Tais investidas estéticas e de comportamento se destacaram na exposição do Grand Palais de Paris (outubro de 2008 a fevereiro de 2009), mesmo local que recepcionou Picasso em botão, aos 19 anos. Na plêiade de artistas selecionados, dos renascentistas aos contemporâneos e, naturalmente, Picasso. O esplêndido álbum alusivo à mostra, Picasso et les Maîtres (Paris, 2009), é imprescindível para o mergulho na obra do gênio espanhol e seu instinto criador, construtivo e iconoclasta. Dou-lhe um singelo mural daquele evento. Repare nas nuanças sutis das colorações e colagens gestuais, nas inversões dos volumes, formas e enquadramentos (como se fossem re-contemplados ao espelho), nas captações dos humores e revelações íntimas dos seres, nos intercâmbios de estilo e diálogos entre as imagens, nas variações e rodeios em torno aos mesmos temas e atmosferas pictóricas. Nesse prazer interativo de internauta, caro internauta, buen viaje!




1. Nicolas Poussin. Autorretrato (1650, Musée du Louvre, Paris)
2. Picasso. Autorretrato (1901, Col. Particular)






1. Paul Gauguin. Autorretrato (1893-94, Col. Particular)
2. Picasso. Autorretrato (1901, Musée Picasso, Paris)




                                             
1. August Renoir. Cabeleireira (1900-01, Musée Picasso, Paris)
2. Picasso. Cabeleireira (1906, Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque)



                                             
1. Debois. A toalete de Psiquê (Séc. 17, Musée Chateau, Fontainebleau)
2. Picasso. O Entreter (1923, Col. Particular)




 1. Edgar Degas. O Absinto (1875, Musée d'Orsay, Paris)
2. Picasso. A bebedora de absinto (1901, State Hermitage Museum, S. Petersburgo)




         1 . José de Rivera. Domócrito (1630, Museo del Prado, Madri)
       2. Picasso. Retrato de Ambrósio (1910, Museu Pouchkin, Moscou)




1. El Greco. A Visitação (1606-14, Hause Collection, Washington DC)
2. Picasso. As duas irmãs (1902, State Hermitage Museum, S. Petersburgo)







1. Edouard Manet. Desjejum na relva (1863, Musée d'Orsay, Paris)
2. Picasso. Desjejum na relva (1960, Hahmad Colletion, Londres)




1. Edgard Degas. As passadeiras (1884-86, Musée d'Orsay, Paris)
2. Picasso. A Passadeira (1904, The Salomon Guggenheim Museum, NYC)




1. El Greco. A visão de S. João (1608-14, Metropolitan Museum of Art, NTC)
2. Picasso. As senhoritas d'Avignon (1907, MoMA, NYC)




1. Velázquez. Las Meninas - detalhe (1656, Museo del Prado, Madri)
2. Picasso. Infanta Margarida (1957, Museo Picasso, Barcelona)


1. Nicolas Poussin. O Rapto das sabinas (1637-38, Metropolitan Museum of Art, New York)
2. Picasso. O Rapto das sabinas (1962, Centre Pompidou, Paris)

Eia, ese Picasso, que se marchó de esta vida en 1973,
musicante y poeta, con dos Pablos: Casals y Neruda.
Salud a los trés, y a nosotros!





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