sexta-feira, 21 de outubro de 2011

VELHA ESTAÇÃO

 

Fotos: Romildo Sant'Anna


Sinto uma coisa por dentro ao ver a velha estação. No embaçado dos tempos que se foram, vislumbro nossa mãe embarcando em busca de recurso, fraca do coração. Nos meses seguintes, e quando a saudade era tanta, recostava-me no pilar junto ao qual vivenciamos os minutos em contagem regressiva. Inda ouço o apito doído do agente de tráfego num paletó de fantasma sentenciando a partida. No enfim, a luz chocha do último vagão sumindo na curva e um tuntatá vibrando no peito e triscando nos olhos. Imaginava: noite alta, fariam baldeação para o trem elétrico e, dali em frente, o cheiro amargoso de fio queimado a impregnar de escuro as armações ovais da Estação da Luz.

Naqueles tempos, tantos dormentes e trilhos de aço amolecidos de esperanças entrecruzavam destinos: os da Paulista, a Sorocabana, a Central do Brasil, a Mojiana e os da Santos-Jundiaí... Da Noroeste partia o Trem da Morte a serpentear os charcos mato-grossenses de encontro à Bolívia. Dali, o entroncamento para Cuzco e a misteriosa cidade incaica nas lonjuras peruanas. Almir Sater e Renato Teixeira poetizaram o percurso: "Enquanto este velho trem atravessa o Pantanal, só meu coração está batendo desigual. Ele agora sabe que o medo viaja também sobre todos os trilhos da terra!".

Por uma ou outra história de vida, imagens de antigas gares se amalgamam em nosso peito. Sinalizando a chegada do progresso, tais edifícios, com suas marquises encobrindo as plataformas, galpões de mercadorias, bilheteria, armazéns e escritório telegráfico constituíam fortunas comunitárias de dimensões que superam a materialidade. Ontem, a agitação polifônica de cores, sonhos e vozes em vindas e arribações; hoje, o ermo enlutado do vazio só interrompido pelo rumor dum comboio de cargas. No mais, o voo incisivo e cego dum morcego, e o passo lento e oblíquo dum bicho sem dono.
           

Fernando Brant e Milton Nascimento, com singelo lirismo, registraram em música a correlação entre as estações ferroviárias e nossa passagem pelo mundo. Desnudam nosso ir e vir não só no espaço, mas nos solavancos do tempo: "E assim, chegar e partir, são só dois lados da mesma viagem. O trem que chega é o mesmo trem da partida. A hora do encontro é também despedida. A plataforma desta estação é a vida desse meu lugar, é a vida desse meu lugar, é a vida...".


Por que a desestima a nossos bens tão preciosos? Há 150 anos, éramos brasileiros europeizados e europeus relutantes em se abrasileirar. Mas faz tanto tempo! Cadê o autorrespeito? Ante o estado de desolação desses edifícios, a omissão das autoridades que, de joelhos nos ritos do agora, abandonam tais patrimônios em condições deploráveis, quiçá a enunciar nas paredes encardidas dolentes perguntas: que desvario, que toscos sentimentos, em que labirintos da inteligência, que estranha libido incita os humanos a descarrilarem de suas próprias sendas, largando ao léu as matulas do passado? Que descaminhos, que desfavor ao porvir! Sinto uma coisa por dentro ao ver a velha estação.



Um comentário:

  1. Vivi demais este tempo. Sempre associo, ao rever a velha estação, à memória olfativa do aroma oleoso da SWift
    Wilson daher

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